domingo, 11 de abril de 2021

 

MARIA ESTELA GUEDES
Ler ao Luar

A SIMBÓLICA
NAVALHA DE ENXERTAR

 

ROBERT L.D. COOPER
LES FRANCS-JARDINIERS
Introduction aux origines et à l'histoire d'un ordre méconnu
Traduit de l'anglais par G. Saunier
Bagnolet, Editions Ivoire-Clair, 2000, 124 pp. il..



O livro de Robert Cooper, intitulado na edição original (London, 2000) "An introduction to the origins and history of the Order of the Free-Gardeners", intenta a história de uma ordem secreta, a dos Jardineiros-Livres, situando-a em Inglaterra. Não há estabelecimento de relações com a mesma ou sociedades congéneres noutros países, se bem que tenham existido, e existam. Com a Carbonária, também não se estabelecem ligações.

Em Portugal, temos notícia de sociedades secretas de jardineiros no passado, como tal designadas. São as sociedades keporáticas (do grego képouros, significando jardineiro), como informa Oliveira Marques, num dos volumes da sua obra maior sobre a Maçonaria em Portugal. À Sociedade dos Jardineiros, sediada em Coimbra, pertenceu Almeida Garrett, que deve ter sido, de resto, seu co-fundador. No presente, posso garantir que há carbonários em Portugal - ou pelo menos uma carbonária -, membro da Alta Venda que se localiza na Floresta Negra de Curitiba, Brasil. O bastante para não levarmos muito à letra a "Ordem desconhecida" que o autor fez questão de evidenciar no título da sua obra, nem a sugestão de que só houve jardineiros no passado, e só na Grã-Bretanha. Porém é facto que nem os membros conhecem as sociedades keporáticas. Todas as sociedades iniciáticas são secretas, e os seus historiadores iniciados fazem o que podem para criar obstáculos epistemológicos a quem muito seriamente gostaria de fazer História dessas interessantes sociedades. O caminho está semeado de dificuldades e cascas de banana mitológicas, nas quais alguns acreditam, mesmo depois de os seus mais verosímeis proprietários já há muito haverem relegado o Génesis e outra literatura bíblica para os confins do fabulário.

Como em quase toda a literatura que se ocupa destes temas, um dos grandes problemas de Robert Cooper, que não vi solucionado, é o de saber se os maçons jardineiros pertencem ou não à maçonaria... Todo o livro é uma confrontação entre as duas ordens - Maçonaria Florestal ou da Madeira e Maçonaria da Pedra ou Alvenaria -, a testar se são irmãs, boas primas, ou de famílias diferentes, e parece que os maçons da madeira não são de facto maçons, ao passo que os maçons da Alvenaria são verdadeiros maçons...

O problema é enorme, concordo, porque, não tendo interesse por aí além, gastam-se com ele tinteiro e gigabytes de paciência, sem chegar a lugar nenhum: as iniciações apresentam estrutura idêntica, os emblemas são idênticos, o funcionamento das lojas é idêntico, o telhamento é similar, até o glossário é em parte igual, para não dizer que não há diferença relevante entre GADU (Grande Arquitecto do Universo) e GJDU (Grande Jardineiro do Universo). Tudo é maçónico de um lado e do outro, mas os maçons têm sempre de comparar com a sua maçonaria a maçonaria alheia, como se não fosse a mesmíssima. Daí absurdos como o que passo a traduzir, página 52:

"Quais são então as relações entre as duas Ordens? Ambas apresentam uma forma de conhecimento esotérico, baseado principalmente no Antigo Testamento, transmitido durante assembleias de pessoas previamente iniciadas. Todavia, é por um exame dos Iniciados das duas Ordens que podemos tentar identificar os elos reais ou estruturais que há entre eles, tendo em mente que todos os membros conhecidos das duas Ordens se tornaram pedreiros-livres, depois de terem sido jardineiros-livres. O maior grupo conhecido de Franco-Jardineiros, que de seguida se tornaram Franco-Maçons, fazia parte da loja (maçónica) Kilwinning Scot Arms (KSA). Pouco se conhece desta loja, excepto a lista dos seus membros, conservada no Freemason's Hall, em Edimburgo, sede da Grande Loja da Escócia. A lista permite identificar nove pessoas que mantinham dupla filiação com a loja dos Franco-Jardineiros de Dunfermline".

Estes jardineiros, antes de se terem convertido à maçonaria, faziam parte da loja maçónica Kilwinning Scot Arms. É pelo menos o que escreve o autor. Em Portugal temos uma adivinha cuja solução não é, mas devia ser "Maçon": Qual é a coisa, qual é ela, que, antes de ser, já o era?

Outro obstáculo epistemológico, ou impedimento deliberado do acesso do investigador ao conhecimento objectivo destas sociedades, provém do desejo de legitimar uma loja numa genealogia. E surge de novo o absurdo. De um lado, o excessivo rigor com que alguns supostos historiadores das sociedades secretas assinalam a abertura de dada loja, vamos supor em 1601, e não em 1599 (diferença de século...), apesar de estar provado que ela existia já em 1599, porque só em 1601 aparecem documentos a assegurar a sua existência. Posta a data no seu histórico lugar, a seguir, na análise do ritual e da simbólica, não há pudor nenhum em declarar que Adão - mas não Eva, felizmente - foi o primeiro de todos os jardineiros, aquele sobre quem repousa a Tradição, exibida no desenho de aventais, écharpes, fitas e objectos afins.

Jardineiros e carbonários pertencem à Maçonaria Florestal ou da Madeira. Em Portugal, tenho notícia dos jardineiros, desde a primeira leva de estudantes que frequentaram, na Universidade Reformada, as aulas de Química, Zoologia, Física, Matemática, etc., ministradas pelos professores italianos convidados pelo marquês de Pombal a preencher esses lugares em Coimbra. Ao seu número pertencem homens como Álvares Maciel, iniciador do Tiradentes na Maçonaria, e José Bonifácio de Andrada e Silva, iniciador de D. Pedro, o que faz deste um imperador carbonário (1).

Muito rapidamente acabei de identificar carbonários com jardineiros, e de facto é esse o meu entendimento do assunto: a maçonaria que assenta no reino vegetal e nos trabalhos da madeira (carvoeiros, lenhadores, jardineiros, rachadores, etc.) os seus ritos e simbólica é a Maçonaria Florestal ou Maçonaria da Madeira. A que funda na pedra e nos trabalhos de alvenaria ritos e simbólica é a Maçonaria da Pedra. Robert Cooper apresenta, entre as ilustrações que escolheu, vários emblemas que mostram à evidência, para lá de outros elementos mais conhecidos, a consanguinidade das relações entre jardineiros e carvoeiros.

Pertencem ao livro em análise as imagens que mostro, à excepção do catálogo de navalhas de enxertar, coligido na Internet, e da fotografia do alfinete de ouro, acabada de tirar. Em todas as imagens vemos o "couteau de greffe", na tradução francesa, navalha de enxertar, na nossa língua. Parece que a navalha foi enxertada num emblema da Alvenaria, com os usuais compasso e esquadro. Mas pode ser o contrário: a Maçonaria da Pedra é que foi enxertada no emblema da Carbonária.

Enxertar é uma operação agrícola que consiste em unir partes de vegetais oriundas de plantas distintas, resultando em uma só planta. Talvez seja este o enigma das duas distintas ordens de sociedades iniciáticas, enxertadas de modo a produzirem uma só planta, que nem é Madeira nem Pedra, sim Maçonaria apenas.

Bem curiosa é a navalha de enxertar. Porquê um instrumento de enxertia e não, por exemplo, umas tesouras de poda? A poda é essencial para eliminar asperezas, excessos, ela faz parte do processo de aperfeiçoamento que vai da casca grossa à madeira aplainada. A enxertia, não. A enxertia não se refere a aperfeiçoamento, é criação, arte de gerar um terceiro a partir da união de dois diferentes. Por isso a enxertia é própria dos mestres, está na base de obras-primas na área, vamos dar um exemplo óbvio, o da vinha. As diversas castas são obras de arte, como são obras de arte uma catedral ou um castelo. Ora a arte pouco tem que ver com o natural. Jardineiros hábeis na enxertia também o são no cruzamento de espécies distintas de que resultam novas. Os membros das sociedades keporáticas incluíam jardineiros e horticultores de facto, e era hábito promoverem concursos de horticultura e floricultura. Permutavam sementes, dedicavam-se à experimentação, construíam jardins. Este é o espectro de vivências de naturalistas como Francis Bacon, entre os séculos XVI e XVII, que propunha, entre inúmeras outras maravilhas, novas técnicas de enxertia e obtenção de híbridos por cruzamento de espécies, mas também, no século seguinte, de homens como o Visconde de Barbacena, Vandelli e Lineu, permutando sementes e conhecimentos científicos, e, mais perto de nós, de cientistas como Gonçalo Sampaio e Fernando Frade. Este, embora zoólogo, promoveu concursos de floricultura e descreveu, na Serra de Monsanto, uma lista de flores fortemente acentuadas nos latinos nomes, junto ao miradouro de Salazar. Tal como S. Francisco, também ele falou às aves, garantindo que, pelo seu bico, é Deus que fala.

Britiande, 21 de Abril de 2006
















Uma casa especializada em objectos rituais e jóias maçónicas escolheu para seu próprio emblema o dos jardineiros-livres, com a navalha de enxertar entre o compasso e o esquadro. Este emblema é também o da Carbonária.
 













O emblema maçónico com a navalha de enxertia, na fachada do bar Gardeners Arms, pertencente à Fraternidade de Jardineiros-Livres de Haddington
O mesmo emblema, com a navalha de enxertia entre compasso e esquadro, aberta na mesma posição e ângulo do esquadro, num alfinete de ouro pertencente a Stella Carbono, inciada na Maçonaria Florestal Carbonária.
 
(1) GUEDES, Maria Estela (2005) - Lápis de Carvão. Colecção Ora e Outrora, nº 13. Apenas Livros Editora, Lisboa. Em linha no TriploV, com o título: "Naturalismo e Maçonaria Florestal": http://www.triplov.com/estela_guedes/natur_florestal/index.htm
 

 

 

 

Maçonaria florestal

 

Maria Estela Guedes

Maria Estela Guedes
Centro Interdisciplinar de Ciência,
Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa-CICTSUL

Simbologia da Maçonaria Florestal
num ritual da Carbonária Portuguesa

Conferência na Galeria Matos Ferreira, 10.10.08, Lisboa
Publicado em O Escritor, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, nº 24-25, 2009

A Frei José Augusto Mourão, amigo para a eternidade

"... a consciência simbólica criadora da arte e da religião"
"... e então o símbolo acaba por ser uma teofania"
Gilbert Durand

Simbologia vegetal

Entre as várias ordens maçónicas, existe a Maçonaria Florestal ou Maçonaria da Madeira. Integrantes dela, funcionaram em Portugal instituições diversas, mencionadas pelos historiadores desde a segunda metade do século XVIII, pelo menos. A Sociedade dos Jardineiros, por exemplo, actuava em Coimbra ao tempo em que Almeida Garrett era estudante, uma vez que foi seu fundador ou restaurador. As múltiplas carbonárias, como o Sinédrio, a Carbonária Portuguesa e a Carbonária Lusitana, também fazem parte da Maçonaria da Madeira. A Carbonária Portuguesa, mais conhecida, fundada por Luz de Almeida, é aquela a que em geral se refere a História, ao relatar os principais sucessos da implantação da República. A minha palestra tem justamente por centro um ritual da Carbonária Portuguesa.

Elemento pouco divulgado é o de estas sociedades, por vezes secretas, mas mais propriamente iniciáticas, serem na origem organizações académicas e mesmo estudantis. Podem elas evoluir a ponto de congregarem membros de todas as idades e estratos sociais, como sucedeu com a Carbonária Portuguesa, nas imediações da implantação da República, em que se diz ter contado com mais de quarenta mil membros, porém o seu surgimento é em regra universitário e coimbrão.

É convicção minha de que a Maçonaria Florestal Carbonária contemporânea, a trabalhar no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, etc., descende, através da memória da Carbonária Portuguesa, das sociedades keporáticas, como lhes chamou Oliveira Marques. As sociedades keporáticas eram as sociedades secretas de jardineiros, como essa de Coimbra a que pertenceu Almeida Garrett.

Apresento duas provas em favor da tese: o emblema da Carbonária é o que identificava a Sociedade dos Jardineiros Livres ingleses. No interior do triângulo formado por compasso e esquadro, apresenta a navalha de enxertia.

Em baixo: O emblema da Maçonaria Florestal Carbonária do Brasil, com a navalha de enxertia entre o compasso e o esquadro. Em cima, o mesmo emblema, em Inglaterra, identifica a Sociedade dos Franco-Jardineiros (In Cooper).

Ora a navalha é a mais familiar das ferramentas de trabalho simbólicas na Maçonaria Florestal. Servindo para a selecção artificial das árvores de fruto, a navalha fica assim ao serviço da Arte. No dia-a-dia, usava-se para cortar o pão. Na falta de outra, servia de arma.

Nos “Regulamentos da Carbonária Portuguesa” que me servem de corpus para este ensaio, reza um dos deveres gerais do carbonário que todos devem estar armados para sua defesa. De outras fontes sabemos que se exigia arma de fogo com os competentes cartuchos.

Segunda prova para defesa da minha tese de que a Carbonária é herdeira das Sociedades de Jardineiros: as carvoeiras ou carbonárias actuais também se chamam "jardineiras". Com esta nota acabei de informar que a Maçonaria Florestal Carbonária é andrógina, não pratica a exclusão sexual. Homens e mulheres participam igualmente nas sessões do Templo.

A Maçonaria Florestal assenta a sua simbólica nos trabalhos e instrumentos dos operários cuja matéria-prima é a flor ou a flora, enfim, a floresta diz respeito ao Reino das Plantas. Na altura da iniciação, os carvoeiros adoptam um nome simbólico, em geral de heróis das revoluções republicanas nos seus países. Em Curitiba, temos assim os actuais Anita Garibaldi e Giuseppe Garibaldi, na Alta Venda Carbonária do Brasil, que aproveito para cumprimentar com o voto de “Salute e Fratellanza”! Outrora, noutros ritos, os nomes simbólicos eram tirados da floresta, e havia então o Bom Primo Olmo, o Bom Primo Carvalho, o Bom Primo Choupo e por aí adiante.

Os trabalhadores que em tempos antigos praticavam ritos aos quais se atribui a origem da Maçonaria Florestal contemporânea habitavam as florestas da França, Itália e Alemanha: eram carvoeiros, lenhadores, carpinteiros, marceneiros, etc.. Pode no entanto a origem mítica remontar aos druidas e à famosa poção mágica extraída de plantas que aparecem em tufos nos ramos das árvores, o Viscum album, ou visco. Em francês, como sabemos dos livros do Astérix, o extracto tem o nome de gui. Tomado na sopa, dá muita força. Isso acontece porque as bagas de visco têm propriedades medicinais. Antigamente era usado como remédio para a epilepsia e distúrbios nervosos, para doenças cardíacas, hipertensão e digestão.

A simbologia da Maçonaria Florestal remonta ainda à construção do Templo de Salomão, ideado pelo arquitecto Hiram Abif, tomando por matéria-prima os cedros do Líbano.

A Maçonaria Florestal Carbonária é cristã, como fica evidente no cabeçalho do ritual da Carbonária Portuguesa, ao pôr debaixo do triângulo da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, o lema “Deus e o Povo”. Por conseguinte, sendo cristã, a árvore, o jardim, a madeira, e outros símbolos retirados do Reino das Plantas e das ferramentas usadas para trabalhar a matéria-prima vegetal, também se deduzem da simbólica dos Evangelhos, e muito em particular do de S. João.

Jesus Cristo, na Bíblia, além de carpinteiro, é por vezes chamado “Jardineiro”. Ele usava a machadinha, a plaina, o martelo e os pregos, alfaias que podemos encontrar no interior do templo de madeira dos carvoeiros. As maçonarias não são ateístas nem irreligiosas. Em tempos passados, foram, todas elas, por imperativos sociais e políticos, anticlericais.

Ai, minha machadinha!

Neste ponto verificamos que os mesmos símbolos são partilhados pela Igreja e pela Maçonaria, de resto é sobre a Bíblia que a maioria dos maçons faz o juramento do seu grau. A simbologia não é propriedade privativa de nenhuma sociedade nem religião. Ela é comum a várias instituições. Tomemos a cruz como exemplo. A cruz é um símbolo que tanto pode analisar o padre como o psicanalista, o maçon como o astrólogo. Os símbolos são os mesmos para todos, por isso, quando um padre faz a sua interpretação, o maçon não pode criticá-o, argumentando que a Maçonaria não legitima a leitura católica. Inversamente, o padre também não tem autoridade para dizer que a Igreja não legitima o discurso maçónico. A credibilidade para sustentar um trabalho é interna, diz respeito à área em que ele se situa, e deriva portanto do juízo dos pares. Ora não é a Ordem dos Advogados que pode avaliar a competência do trabalho realizado no hospital por um membro da Ordem dos Médicos.

O intérprete católico precisa da literatura produzida pelos Padres da Igreja para se sentir seguro da sua exegese. No caso do maçon, a situação é contraditória: de um lado, os símbolos estão todos ou quase todos dicionarizados, de modo que bastaria consultar um dicionário para a descodificação ficar autorizada. Há dezenas de dicionários maçónicos de símbolos, mas em geral provêm da Maçonaria da Pedra. Não conheço nenhum dicionário, e ainda menos nenhuma enciclopédia, da Maçonaria Florestal. Além da obra de Jacques Brengues, “La Franc-Maçonnerie du Bois, Protectrice de la Forêt”, nunca li mais nenhuma obra sobre a Maçonaria da Madeira. As fontes, quando acessíveis, são os rituais, porém os rituais em uso são normalmente secretos. Daí que seja muito valioso o ritual da Carbonária Portuguesa que agora vos apresento, datado de 1850. O que se tem escrito sobre a Carbonária não contempla o facto de se tratar de uma instituição maçónica e ainda menos de ser a mais importante da Maçonaria Florestal. Julgo que fui pioneira nestas matérias, e sobretudo ao chamar a atenção para a existência da Maçonaria da Madeira.

Para voltar às obras de consulta, dicionários não-maçónicos de símbolos, há alguns. Um dos melhores, aquele que por isso quase todos usamos para legitimação do nosso discurso, é o “Dictionnaire des Symboles”, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

Para o maçon, a legitimação do discurso envolve um conflito porque um dos mais importantes trabalhos, aquele que diz respeito ao avanço do seu conhecimento espiritual, traduzido em expressões simbólicas como "podar a grimpa" (vencer o orgulho), mudar a "casca grossa" em "madeira fina e aplainada", uma das mais importantes tarefas do maçon florestal, dizia eu, é justamente a de interpretar os símbolos. Se não fizer mais do que citar os dicionários, limita-se a copiar e nada de seu põe na exegese. Parte-se do princípio de que, para ter algum valor, a interpretação precisa de recriar o conteúdo espiritual do símbolo. Por isso, repetir o que outros disseram, não basta. Para recriar, ou mesmo criar algo no domínio do espírito, é preciso ter dons muito particulares.

Repetir e copiar não é interpretar, é passar um testemunho de maneira mecânica. Sem desprezar a Tradição, cabe ao maçon ler os símbolos de acordo com a sua cultura e afectos, à luz da sua subjectividade, investindo a alma e o coração num trabalho que não é apenas intelectual, é sobretudo religioso. Como diz Gilbert Durand, o símbolo é uma teofania, a manifestação da divindade. É dessa manifestação que o bom carvoeiro necessita de ter experiência.

Não se trata então de repetir que o punhal simboliza a justiça, a rectidão e a disciplina, e que a machadinha simboliza a autoridade e o poder, sim de ter a experiência do divino por mediação de um ritual em que as ferramentas de trabalho assumem a função de objectos litúrgicos.

A machadinha, simbolizando a autoridade e o poder, num avental de
Mestre Maçon Carbonário

Ao chegar a Mestre, o maçon alcançou mestria, autoridade para fazer a leitura do ritual e das alfaias. Donde não precisa de legitimação estranha à sua capacidade própria de sentir e de compreender. Ele é Mestre, não precisa que o legitimem, pode é legitimar ele o discurso do Aprendiz de Carbonário e do Companheiro Fendedor.

A Maçonaria teve a missão histórica de lutar pela laicização do ensino e de promover o direito ao livre arbítrio. Assim sendo, não aceita o método do magister dixit, e ainda menos que sapateiros pretendam apontar defeito à obra dos carvoeiros.

Um ritual da Carbonária Portuguesa

O ritual de que me vou ocupar, com data de 1850 da Era vulgar, é a segunda parte de um opúsculo de 8 páginas. Está em linha no TriploV. A primeira parte diz respeito à organização das choças, e a segunda, com apenas cinco páginas, é o “Ritual das sessões”. Não tem erros, está redigido segundo o protocolo ortográfico da língua portuguesa da época. Os elementos de escrita que não pertencem ao protocolo ortográfico usado em 1850 também não são erros, dizem respeito a códigos internos da Maçonaria Florestal: abreviaturas, simples ou com as iniciais repetidas, para indicar o plural, como em BB’.’ PP’.’ (Bons Primos); maiúsculas honoríficas, para sublinhar o valor litúrgico das alfaias, como em “Tronc’.’ Sag’.’” (Tronco Sagrado); e a tripontuação tipicamente carbonária - três pontos em triângulo, com o vértice em baixo, depois das abreviaturas de nomes simbólicos.

1. Carbono, Choça e Rito Florestal

O primeiro termo simbólico do ritual é "Carbonária". Na sua raiz temos carbono, o carvão, alusivo às origens da instituição: os carvoeiros, com os seus ritos nocturnos e de ar livre, nas florestas europeias.

Duas páginas dos “Regulamentos da Carbonária Portugueza” explicam a organização da célula de base. As Choças – explica o opúsculo de forma puramente administrativa – são os elos da grande cadeia democrática, que deve abranger o país.

Em termos simbólicos, a barraca e a choça, construções de madeira próprias de zonas florestais, são o templo em que reúnem os carvoeiros para a prática do seu rito próprio, o Rito Florestal.

2. Tronco e archa, navalha e punhal

O ritual abre com o Presidente, a que noutras choças se daria o nome de Pai-Mestre, a dar uma pancada de archa sobre o tronco sagrado. O tronco é a ara. Trata-se de mais um símbolo florestal, retirado da semântica da árvore.

Existe ainda o "tronco das esmolas", para designar o saco onde se deposita o habitual contributo em dinheiro de cada sessão.

A archa é uma antiga arma, com lança e machado de dois gumes, a que corresponde a machadinha, noutras choças. A machadinha representa o poder da autoridade. É uma ferramenta de trabalho indispensável aos lenhadores ou rachadores, designações que também competem às carvoeiras ou jardineiras.

Não se referem no texto certas alfaias, como o punhal e a navalha. Se a navalha é familiar, já o punhal se situa num patamar de mais alta cerimónia. Ele faz parte dos paramentos, tem funções ritualísticas, dentro e fora do templo. É com os punhais cruzados acima da cabeça que se forma a “abóbada de aço”, destinada a honrar algum nobre visitante. Em várias situações, durante o ritual, o carvoeiro toma o punhal na mão para simbolizar em primeiro lugar a protecção devida ao Bom Primo, quando em perigo.

Como sucede com outras armas brancas, a sua lâmina representa também os raios da Luz, por conseguinte o conhecimento espiritual. Nesta linha de ideias, o punhal é homólogo da luz emitida pelo Delta radiante que contém a letra sagrada G. Esta simbologia não agressiva manifesta-se no facto de o punhal se usar à esquerda.
A arma usada pelos carvoeiros, quando paramentados, é o punhal. O da foto tem a identificação da Loja Carbonária "Independencia nº 9", do Paraguai
3. A cruz na Floresta de símbolos

A cruz é um símbolo comum. Já a vimos nas pontas cruzadas dos punhais, para formarem a abóbada de aço, e está presente na caveira com os ossos cruzados. No “Ritual das sessões” de que me ocupo, diz o Presidente:

“- Visto que o sino da redenção ainda não tocou, convido-vos, Bons Primos, a meditar no dever do Carbonário, e nos altos destinos da nossa sociedade.” Em resposta, “Todos cruzam os braços, e inclinam a cabeça em sinal de meditação”.

O carácter carbonário da cruz vem-lhe necessariamente de ser um madeiro. É por excelência o tronco da Floresta sobre o qual assenta a Maçonaria da Madeira, que exige do candidato a carvoeiro que professe a religião cristã, sob pena de não poder ser admitido na Ordem.

Finda a meditação, o Presidente dá uma batida no tronco com a machadinha e pergunta se já nasceu o sol. Ao que lhe responde o Bom Primo Inspector: “- Já alumia a nossa floresta”. O território da Maçonaria Florestal é naturalmente uma floresta de símbolos.

O símbolo é um instrumento dos homens para falarem de Deus e com Ele. Nessa situação, é importante saber interpretar e reinterpretar, porque os símbolos tendem a esvaziar-se, quando as comunidades se laicizam. Para o ateu, o símbolo é um objecto decorativo e nada mais. O lugar sagrado, nos nossos dias, tornou-se uma estrutura vazia. Conseguir tornar densos de sentido os símbolos ou fazer emergir neles o fogo sagrado é tarefa difícil para sociedades que se impõem a passagem de testemunho da Tradição e praticam um rito como as religiões, sem serem uma religião. Consegue a Fénix renascer das cinzas, entre ervas aromáticas? No nosso tempo, uma larga faixa da sociedade, correspondente sobretudo à élite intelectual, é nihilista. Vivemos tempos sem fé e sem crença, porém não existe ruptura total com a esfera divina.

Eis o capital que resta e deve ser utilizado, quando a fé cai na bancarrota: esperança e desejo de Deus.

Bibliografia

Almeida, Luz de, A obra revolucionária da propaganda: as sociedades secretas. In: "História do regime republicano em Portugal". Dir. Luís de Montalvor, Lisboa. Vol. II, pp: 202-256, 1932.

Brengues, Jacques, “ La Franc-Maçonnerie du Bois, Protectrice de la Forêt”. Paris, Guy Trédaniel Éditeur, 1991.

Carbonária Portuguesa, “RR’.’ da C’.’ Portugueza” (Regulamentos da Carbonária Portuguesa) . Dado na A'.' V'.' da C'.' P'.' estabelecida ao Or'.' de Lisboa, debaixo dos ausp'.' do G'.' Triang'.' aos 20 de Novembro de 1850. Era vulgar. Lisboa, 1852, 8 pp. Em linha no TriploV:

Carvalho, Joaquim Martins de, "Apontamentos para a História Contemporânea". Capítulo VII: A Sociedade Secreta dos Jardineiros de Coimbra. XX: A Carbonária Lusitana. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1868.

Chevalier, Jean & Alain Gheerbrant, “Dictionnaire des symboles: Mythes, rêves, coutumes, gestes, formes, figures, couleurs, nombres”. Seghers, Paris, 1973.

Cooper, Robert L.D., "Les Franc-Jardiniers - Introduction aux origines et à l'histoire d'un ordre méconnu". Traduit de l'anglais par G. Saunier. Bagnolet, Editions Ivoire-Clair, 2000.

Durand, Gilbert, "A imaginação simbólica". Editora Arcádia, Lisboa, 1979.

Guedes, Maria Estela, "Lápis de Carvão". Colecção Ora e Outrora, nº 13. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005.

Guedes, Maria Estela, Magia e rito florestal em Herberto Helder. Revista Boca do Inferno, Cascais, Câmara Municipal, nº 10, 2005.

Guedes, Maria Estela, Maçonaria Florestal/Carbonária. Entregue para publicação no "Dicionário das Ordens em Portugal e Brasil". Direcção de José Eduardo Franco, 2007. Em linha no TriploV:

Guedes, Maria Estela, J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez, "À la Carbonara". Lisboa, Apenas Livros Lda, Col. Lápis de Carvão, nº 8, 2007.

Guedes, Maria Estela, A simbólica navalha de enxertar. 2006.

In : http://www.triplov.com/estela_guedes/Ler-ao-Luar/Franc-Jardiniers/index.htm .

Marques, A. H. de Oliveira, História da Maçonaria em Portugal, Política e Maçonaria 1820-1869 (2ª parte), Lisboa, Editorial Presença, 1997.

Teixeira, António Fernandes & Francisco Carlos Campos, “Enciclopédia Maçônica”. Fundação Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura, Brasil, s/l, s/d.

Britiande, 8 de Outubro de 2008
Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV (www.triplov.org). Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; A Poesia na óptica da Óptica. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 https://www.conjur.com.br/2021-fev-01/acacia-sa-acordo-nao-persecucao-civil-improbidade

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 As pessoas devem evoluirem no caminho do bem, ascenderem espiritualmente. Isso se dá com o seu livre arbítrio . Grande parte da humanidade no uso desse livre arbítrio seguiu o caminho da ganância da opção pelo poder, que está no arquétipo da gênese, com a narrativa da sedução de Eva por Lucifer. Lúcifer passa o veneno que o levou à queda para Eva e ela o passa para Adão, fazendo nascer neles a ânsia pelo poder. Isso veio até nós. Nesse arquétipo tbem surge a demonização do sexo (razão da queda de Eva), que só terá a sua ablucão no casamento. Com isso construiram o mundo materialista que ai está . O objetivo do Espiritismo é destruir o materialismo que obsta a elevação espiritual da humanidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

 

Empresário mata filhos 

e se suicida

Corpos são encontrados no apartamento de luxo 

da família 

em Alphaville, São Paulo. Alves da Silva estava

separado 

da mãe das crianças.

20/08/06 - 00h01

SÃO PAULO " O empresário Elk Alves da Silva, de 66 anos, e os três filhos foram 

encontrados mortos 

ontem no apartamento onde moravam em Alphaville, condomínio fechado de alto

 padrão na Grande São Paulo.

A perícia técnica da Polícia Civil concluiu que o pai cometeu suicídio depois de

 ter matado os filhos: Elk Alves da Silva Júnior, de 17 anos, uma garota de 15, 

identificada apenas como Carolina, e um menino de 5 anos.

Alves da Silva, que tinha uma filha de um casamento anterior, estava separado 

da mãe das crianças, Fátima, havia três meses. Ao saber da notícia e ser levada 

ao apartamento, Fátima, representante da fabricante de artigos de cama, mesa e 

banho Donatelli, tentou saltar da janela.

Foi impedida por policiais, que a levaram a um hospital, onde ficou internada. A polícia investiga se os 19 comprimidos que faltavam numa cartela do calmante Lorax achada no apartamento foram consumidos pelas vítimas.

Suspeita-se que eles possam ter sido dissolvidos no leite que estava numa vasilha caída perto do corpo de Alves da Silva. Vizinhos contaram ter escutado estampidos vindos do interior do apartamento, mas não imaginaram que pudessem ser de disparos de arma.

Segundo moradores de Alphaville, o empresário estava inconformado com o fato de a mulher ter exigido a separação. Conhecidos da família comentaram também que Alves da Silva, que atuava no ramo imobiliário, estava falido.

A polícia foi chamada ao Edifício Dijon, em Alphaville, município de Santana do Parnaíba, pelo porteiro, alertado pela empregada da família. Ao chegar ontem para trabalhar, ela estranhou o fato de os moradores não atenderem à porta, apesar de o carro da família permanecer estacionado na garagem.

Os policiais arrombaram a porta e encontraram os corpos dos dois adolescentes na sala; a criança e o pai estavam num dos quartos. Todos tinham tiros na cabeça.

A arma do crime, uma pistola 380, estava junto dos pés do empresário. No apartamento, os policiais encontraram ainda duas espingardas, de calibres 12 e 22, e um revólver calibre 32. (Agência Estado)

sábado, 29 de agosto de 2020

 Flagrantes da Vida Real


Eu tinha dois hábitos dos quais um, pelo menos, permanece: comprar livros na Livraria do sebo, do Amadeu na Rua Tamoios em BH (costume que vem desde os tempos de estudante, e é o que permanece); outro era comprar cursos de direito gravados em fita magnética da TELE-JUR. Esta empresa era de um Delegado da Policia Federal aposentado. Ele era de Passos mas aposentou no RJ e por lá ficou. Os cursos eram muito bons e um, de Direito Constitucional, foi ministrado por este que agora é Ministro do STF, Luis Roberto Barroso. Por aí pode se vê o nível dos cursos...

Naquela época Luis Barroso era Procurador do Estado do Rio de Janeiro, assim como o que ministrou o curso de Direito Penal que foi Secretário de segurança do Estado do Rio de Janeiro; não lembro o seu nome mas era muito bom.

 O Professor do curso de Direito do Trabalho era um juiz do trabalho excelente, e dele ficou a lembrança de uma aula, onde ele usou a expressão alcandorado. Pensei, pronto! Algo de novo no front.  Mas, estudante diligente não despreza o oráculo, fui consulta-lo. Daí veio que, num passado, não muito remoto, a caça era um esporte e privilégio da nobreza. Portanto, apenas aqueles oriundos do  natu nobilis podiam se dar ao luxo de ser um bom caçador. E por falar em caça: foi numa delas que Luis XV, se acidentou na floresta de Sénart e, através disso,  conheceu a Condessa  Du Barry que viria a ser sua amante sucedendo a Madame Pompadour. Pode-se ver que o bom caçador, ainda que acidentado, não perde a sua característica de predador.  Mas, volvendo ao nosso tema,  além dos cães, os falcões eram muito utilizados na idade média como animais adestrados para a caça. Costume esse originário da cultura árabe que o introduziu na Europa, quando ocupou quase toda a Península Ibérica, incluindo Portugal que daí  nasceria por desmembramento  da Espanha.

O Falcão é uma ave de rapina que,  para perscrutar o seu ambiente e localizar a sua prêsa,  precisa se colocar nos  pontos mais altos da floresta ou dos penhascos. Destarte, a sua localização no castelo medieval ficava no ponto mais elevado, sabendo que estes castelos eram muito altos. Ao poleiro do Falcão é que se dava o nome de alcândora que, como o nome denuncia, vem da lingua árabe: al-kándara. Com isso, a metáfora  alcandorar no sentido atual guarda o significado de se elevar ao mais alto posto.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

 Vidas Amargas

A vida é uma escola, e diria até, uma escola de alto nível. O trabalho do iniciado, compreendendo este como aquele que sabe ou está mais próximo de saber o que veio fazer neste 'Vale de lagrimas', é submeter às suas provas, tão faladas e pouco compreendidas. Ela começa por nos forçar a entender que o mundo é composto por uma dualidade. Aqui se digladiam duas forças antagônicas e de difícil conciliação: o mundo da matéria produzido pelo nosso livre-arbítrio e o mundo da Espiritualidade que, em última instância é o que comanda e é o que governa. Via de regra, viemos aqui para vencer o mundo da matéria caracterizado pelo monstro Leviatã que intitula a obra de Thomaz Hobbes. Na obra de Hobbes o Estado é um monstro formado pelos seres humanos.
Quando Cristo diz "aquele que quiser me seguir terá que odiar o seu pai e sua mãe", ele está usando uma linguagem de iniciado do mais alto nível. Naquela época, apenas os iniciados da Escola dos Essênios poderiam entender o que ele estava dizendo. E aqueles que foram iniciados nos mistérios de uma "antiga tradição", para usar a linguagem socrática, podem entender que Cristo se refere ao 'pai' e a 'mãe" porque eles estão lá fora, distante do seu círculo. Portanto, estão submetidos às leis da matéria e contaminados por ela. Se o iniciado se propõe a combater o materialismo terá que odia-lo. Ele é seu inimigo. Os pais são as coisas mais caras que temos e a referência feita por Cristo (simbolicamente) está a nos dizer que o neófito deve odiar o que ele tem mais apego na matéria se quiser ascender na vida espiritual. O iniciado tem que abandonar este mundo e as suas impurezas para fazer surgir um novo homem, liberto das seduções da matéria. Só assim ele estará com as suas mãos 'indenes das águas lodosas do vício". Para isso ele irá conhecer a bonança para depois conhecer o sofrimento. O sofrimento é a marca maior daqueles que se entregam ao materialismo, assim o diz Santo Agostinho: Criaste-nos para vós Senhor e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em vós. Portanto, a redenção e a sua reintegração entre os eleitos, como assevera Martinez de Pacqually, terá que se dar após vencer as provas que lhes são impostas. Para usar a linguagem de uma 'antiga tradição': terá que sorver até a última gota da "Taça da Amargura". E o seu orgulho terá que baixar até pântano produzido pela matéria putrefata de onde surgiu. Destarte, enquanto a matéria dominar o espírito e a razão não submeter as paixões, o mundo denso da matéria estará dominando. É preciso que o 'Espírito domine a matéria' para que possa haver Ordo ab Chao.